A utilização de grelhas digitais para promover as capacidades dos alunos
Resumo
Um professor de espanhol desenvolveu um módulo de extensão do programa Google Sheets para uma ferramenta online gratuita sobre grelhas de avaliação. Os professores podem trabalhar em conjunto com os alunos ou outros colegas para construir os critérios da grelha. Utilizada por muitos professores em Espanha, a ferramenta ajuda a reunir estas diferentes formas de avaliação num local único, para que também possam ser contabilizadas com vista a uma avaliação sumativa. Os critérios na grelha para diferentes níveis de desempenho podem ser visualizados durante as avaliações e podem ser definidos pelo professor, pelo aluno ou colaborativamente.

Source: Esteban Menéndez Mozo
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O contexto político
Por lei, Espanha define que a avaliação dos alunos deve ser contínua, formativa e integrada. Para o Ministério da Educação e do Ensino e Formação Profissionais, é importante que os professores incluam a tecnologia na sua prática pedagógica diária, bem como na avaliação dos resultados dos alunos.
O currículo nacional inclui oportunidades de autoavaliação e de avaliação interpares, por exemplo, em espanhol, línguas estrangeiras, biologia, ciência e tecnologia e educação física. Existem estratégias em todas as disciplinas para desenvolver competências essenciais e aptidões básicas. As orientações curriculares espanholas recomendam que os professores incorporem estratégias que incluam a participação dos alunos na avaliação do seu aproveitamento, designadamente a autoavaliação ou a avaliação interpares. Os alunos são assim incentivados a refletir e a avaliar as suas próprias dificuldades e potencialidades e a participar em atividades colaborativas. A reflexão pessoal e a aprendizagem autónoma são igualmente promovidas através da monitorização do seu próprio progresso, o que reforça a motivação para aprender e a autoeficácia.
O Instituto Nacional de Tecnologia Educativa e Formação de Professores (INTEF) é a unidade do Ministério do Ensino e Formação Profissionais responsável pela integração das TIC e da formação de professores em estágios educativos não universitários. Para ajudar os professores a incorporar a avaliação formativa na sua prática docente, o sítio web do INTEF disponibiliza ao público um conjunto de exemplos de práticas de ensino . O INTEF incentiva a criação de recursos educativos abertos e promove a transição para pedagogias inovadoras nas escolas, com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos alunos e de fomentar abordagens de aprendizagem nas escolas, autónomas e centradas no aluno. O INTEF oferece recursos educativos em muitas categorias (por exemplo, recursos de aprendizagem digital).
CoRubrics é um exemplo de prática disponível na categoria “Observatório de Tecnologias Educativas”. Trata-se de uma biblioteca virtual criada por professores para professores, contendo artigos sobre inovação digital na sala de aula. Cada artigo apresenta uma ferramenta educativa digital, com a respetiva aplicação didática e metodológica, terminando com uma avaliação do autor e uma recomendação final. O observatório está a receber inúmeras visitas, com mais de 4000 visualizações para o artigo CoRubrics no ano transato.
Ferramentas digitais utilizadas
CoRubrics é um complemento gratuito do Google Sheets (línguas disponíveis: EN, ES, FR, CA, EUS). Apoia a autoavaliação, a avaliação interpares e pelo professor individualmente ou em grupos, utilizando uma grelha elaborada pelo seu professor.
CoRubrics automatiza todo o processo de criação e utilização de grelhas na AFD. Em primeiro lugar, os professores criam a grelha que pretendem utilizar no Google Sheets e, em seguida, adicionam os nomes dos alunos e os seus endereços de e-mail (que podem ser importados do Google Classroom). O complemento cria então automaticamente um formulário Google com o conteúdo da grelha; envia o formulário por e-mail aos alunos ou indica a ligação para o professor; trata os dados após o preenchimento do formulário (pelos alunos ou pelo professor) e envia os resultados aos alunos. Cada aluno recebe apenas os seus próprios resultados, juntamente com um comentário personalizado adicionado pelo professor.
A ferramenta, criada por Jaume Feliu, professor da Salas i Xandri (Sant Quirze del Vallès), está disponível aqui. O código-fonte também está gratuitamente disponível para todos aqui.
Outros professores do departamento de educação física da escola utilizam ferramentas diferentes, por exemplo, Additio App, iDoceo. Estas ferramentas incluem a possibilidade de utilizar grelhas, embora nem todos no departamento o façam. CoRubrics, no entanto, oferece informações e possibilidades mais claras do que estas aplicações.
Noutros departamentos, como Matemática, as grelhas têm sido utilizadas para atividades específicas através da classificação de tarefas oferecida pelo Moodle.
A escola situa-se na região das Astúrias e tem cerca de 700 alunos e 80 professores. Uma percentagem significativa de alunos tem dificuldades de aprendizagem e quase metade não tem hábitos de estudo, não passando mais do que duas horas por semana em tarefas escolares. Apenas um terço dos pais ajuda os filhos nos estudos, embora se verifique o recurso considerável a aulas particulares.
A administração regional das Astúrias, no norte de Espanha, cria metas diferentes para as escolas da região todos os anos. Uma delas é o incentivo ao desenvolvimento da competência digital dos alunos e professores e o desenvolvimento de tecnologias digitais nas escolas como elemento transversal de apoio ao processo de inovação educativa. CoRubrics é uma ferramenta adotada pela escola para esse fim.
Os professores precisam de uma ferramenta de avaliação intuitiva que possa ser integrada na avaliação sumativa com a atribuição de notas. CoRubrics resolve esta dificuldade com um modelo que pode facilmente integrar a autoavaliação, a avaliação interpares e pelo professor, bem como transformar facilmente a avaliação qualitativa em quantitativa. Além disso, é uma prática facilmente escalável porque CoRubrics é um complemento gratuito do Google Sheets, permitindo uma colaboração fácil numa folha de cálculo Google partilhada entre professores da mesma escola.
Investigação – Conceber e utilizar grelhas de avaliação
As grelhas ajudam a definir expectativas e critérios claros para a avaliação dos alunos. Podem ainda apoiar os alunos para que reflitam e avaliem a qualidade do seu próprio trabalho e do trabalho dos colegas. No âmbito de uma abordagem, Company e colegas (2017) descrevem um sistema genérico baseado na web de “grelhas adaptáveis”, que dão feedback (com classificações pormenorizadas e níveis de desempenho mediante pedido), são adaptáveis a diferentes necessidades de aprendizagem (por exemplo, com mais ou menos pormenor), recolhem metadados sobre a aprendizagem do aluno e permitem a gestão automatizada de ponderações entre os critérios de pontuação durante a criação da grelha.
Outros estudos defendem o uso de grelhas para estruturar e orientar a autoavaliação e a avaliação pelos pares em linha, com base nos objetivos de aprendizagem específicos. Os alunos também podem ter a oportunidade de adotar ou desenvolver os seus próprios critérios de autoavaliação e de avaliação pelos pares (Eyal, 2012).
Os desafios dentro da escola correspondem a problemas de fraco desempenho, falta de motivação e falta de hábitos de estudo. Os professores tentam resolvê-los criando atividades que incentivem as competências sociais e metacognitivas dos alunos: serem agentes ativos e corresponsáveis pela sua aprendizagem, através de atividades de planeamento, acompanhamento e autoavaliação. As aulas de educação física representaram uma oportunidade para implementar estas estratégias.
Tanto o currículo como as metas regionais incluem referências à avaliação interpares e à autoavaliação. Nos centros de formação??? de professores, há cursos de desenvolvimento profissional sobre a criação de grelhas e formulários.
Na escola, os alunos tiveram acesso a computadores portáteis e a escola permitiu que os alunos utilizassem os seus próprios dispositivos. CoRubrics, um complemento do Google Sheets criado por um professor local, foi instalado nos dispositivos. A rede sem fios na escola é boa e abrange áreas desportivas ao ar livre.
A autoavaliação e a avaliação pelos pares do desempenho dos alunos durante um jogo com a ajuda de uma grelha são critérios de avaliação no currículo de educação física. Este tipo de avaliação implica uma mudança de metodologia porque os professores precisam de organizar atividades colaborativas.
Em educação física, numa série de aulas de voleibol o professor passa 4 a 5 sessões a abordar aspetos técnicos e táticos da modalidade utilizando a metodologia “Ensinar jogos para compreender”. Trata-se de uma abordagem ao ensino de jogos em que o jogo é ensinado antes do aperfeiçoamento das competências. A tónica é posta no ensino aos alunos da compreensão tática antes de lidar com a aplicação de competências, dando mais importância ao desempenho do jogo do que à aplicação das competências. Por outro lado, uma abordagem “técnica” centra-se primeiro em ensinar aos alunos as competências para jogar o jogo, introduzindo em seguida a compreensão tática, uma vez desenvolvida uma base de competências.
O professor usa CoRubrics para criar três folhas de cálculo do Google que contêm grelhas definidas pelo professor (ou seja, as expectativas de uma tarefa que incluem os critérios de sucesso e descrevem ou pontuam os níveis de aproveitamento), os nomes e e-mails dos alunos e os nomes dos professores. A sua utilização é fácil e possível em computadores portáteis ou nos dispositivos dos próprios alunos, de acordo com as suas preferências.

Figura 1 Uma grelha para uma aula de educação física (voleibol), indicando domínios (por exemplo, 4.4: “Executa corretamente os exercícios de técnica como o toque de dedos, manchete, serviço baixo e serviço alto”); declarações de expectativa a diferentes níveis (por exemplo, Regular: “Executa alguns dos exercícios de forma coordenada. Não há grande esforço para corrigir e praticar”) e ponderações (25% para cada domínio).
Em duas sessões, o professor mostra gráficos que ilustram situações em atividades desportivas que os alunos em grupos de 6 a 8 analisam, sendo que um deles desempenha o papel de observador que analisa as respostas dos outros utilizando as grelhas definidas pelo professor, anotando e dando feedback aos companheiros enquanto discutem o gráfico.
Na primeira sessão, os alunos interpretam um gráfico e organizam o material e a equipa. Na segunda, os alunos elaboram exercícios em grupo para trabalhar diferentes aspetos técnico-táticos. Subsequentemente, outros grupos utilizam os gráficos criados e avaliam-se a si próprios e uns aos outros. Por último, são avaliados a qualidade das atividades elaboradas por outros grupos e o papel do observador em cada grupo.

Figura 2 Pontuação da avaliação formativa na folha de cálculo do Google. A pontuação na grelha de cada aluno baseia-se na autoavaliação, na avaliação interpares (coavaliação) e na avaliação do professor. A cada critério corresponde uma coluna para cada tipo de avaliação.
A AFD, conforme aplicada neste estudo de caso, incentivou discussões entre os alunos e entre os professores e os alunos. CoRubrics permitiu que os alunos comparassem rapidamente a sua perceção de si mesmos com a nota do professor. Os alunos receberam informações relevantes sobre a sua evolução, o que reforçou a sua motivação e autoestima para continuar a aprender e favoreceu a reflexão pessoal e a aprendizagem autónoma. Aprenderam a avaliar o seu próprio desempenho e o dos colegas, bem como a dar-lhes feedback e a avaliar de forma colaborativa. A motivação e o envolvimento dos alunos aumentaram quando tiveram a oportunidade de criar e implementar as suas próprias atividades. A autoeficácia do seu comportamento melhorou e passaram a entender melhor quais as ações que precisavam de alterar. Os alunos compreenderam como é difícil avaliar e trabalhar em equipa.
A ferramenta está também a ser usada em diferentes línguas em Espanha e na Europa. Estão disponíveis estatísticas de utilização na página do autor.
Atualmente, a ferramenta está a ser ativamente utilizada na escola por seis professores. O diretor da escola considera que a ferramenta CoRubrics é interessante e poderá ser incluída em futuras sessões de desenvolvimento profissional de toda a escola. Outro professor conduziu atividades semelhantes, mas em papel; considerou a ferramenta útil, mas não teve tempo de utilizá-la e deparou-se com dificuldades técnicas. Os professores que utilizaram as grelhas em papel podem usar a ferramenta para transferir as avaliações para o ambiente digital. Garante-se deste modo que as avaliações que ocorreram em diferentes pontos no tempo sejam reunidas num único local e estejam disponíveis para referência posterior
Continua a ser um desafio o facto de que nem todos os professores começaram a utilizar a ferramenta por falta de conhecimento sobre a mesma ou porque acreditam que o uso da tecnologia é complicado e sentem-se mais confortáveis com as ferramentas de avaliação que já conhecem. Em Espanha, é mais fácil partilhar experiências e recursos com outros professores no ensino primário do que no ensino secundário. No ensino primário, a coordenação entre professores é possível, enquanto no ensino secundário parece que os professores têm mais dificuldade em partilhar e em conhecerem-se uns aos outros (esta escola tem cerca de 100 professores). Cada departamento tem horários de coordenação próprios, o que torna muito difícil trabalhar de forma interdisciplinar e, por conseguinte, partilhar conhecimentos com outros departamentos.
Promover uma abordagem à AFD da escola enquanto organização
Embora relacionada com uma só disciplina, a abordagem neste estudo de caso é transferível para outras disciplinas e grupos etários e pode ser implementada em toda a escola: criar grelhas, utilizar a ferramenta CoRubrics ou um produto semelhante, organizar atividades colaborativas, reservar tempo para a autoavaliação e a avaliação pelos pares durante a atividade e modificação de aulas e grelhas com base nos dados recolhidos.
Podem considerar-se alguns aspetos para alargar a utilização da ferramenta de avaliação formativa digital a toda a escola. Em primeiro lugar, as ações de formação sobre o uso da ferramenta devem ser adaptadas à realidade da sala de aula e serem clarificados conceitos para que todos tenham o mesmo entendimento. Em segundo lugar, quando os professores realizam projetos interdisciplinares, o método de avaliação deve integrar o uso de software colaborativo como o CoRubrics para incentivar a sua utilização. Em terceiro lugar, a existência de um grupo dinâmico de professores pode ajudar em iniciativas como o uso de uma nova ferramenta e o apoio a outros professores da escola.
Outras medidas úteis são a formação interpares no início do ano letivo, uma sessão por semestre para partilhar experiências inovadoras ou interessantes (isto acontece nas escolas primárias e é eficaz) e a criação de períodos de tempo comuns no horário que permitam aos departamentos coordenar, por exemplo, uma hora no final do dia letivo.
Os professores, neste caso, consideraram que a partilha interpares resultou no que se refere a encorajar os professores a adotar estas novas práticas. No entanto, é cada vez mais difícil nas escolas realizar formação interpares e congregar um grupo alargado, devido à carga de trabalho administrativo e às poucas horas disponíveis para partilhar este tipo de experiências e ideias.