A autoavaliação como uma prática de toda a escola
Resumo
Os professores de uma escola primária pública em Burgos (Espanha), usam ferramentas digitais de acesso livre para utilizar dados de avaliação de modo formativo. A escola incentiva o desenvolvimento profissional contínuo do corpo docente no uso de ferramentas digitais para pedagogias centradas no aluno. É também utilizada a SELFIE, uma ferramenta desenvolvida pela Comissão Europeia para avaliação do modo como as ferramentas digitais são utilizadas nas práticas de ensino. Considera-se que todos devem estar recetivos a refletir constantemente sobre a sua forma de trabalhar para melhorarem a sua prática e se adaptarem às necessidades dos alunos.

zldrawings.com - Zsofi Lang
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O contexto político
Os professores em Espanha fazem formação regular na utilização de ferramentas de acesso livre e de código aberto, o que lhes permite oferecer aos alunos estratégias de progressão no cumprimento do currículo do ensino primário.
O currículo da escola primária pública encontra-se definido em quatro estruturas legislativas: A Lei 8/2013, relativa à Melhoria da Qualidade Educativa, o Decreto Real 126/2014, que estabelece o currículo do ensino primário, o Decreto 122/200, que estabelece o programa do segundo ciclo da educação pré-escolar em Castela e Leão, e o Despacho EDU / 519/2014, que estabelece o plano de estudos e regulamenta a implementação, avaliação e desenvolvimento do ensino primário em Castela e Leão.
A escola primária Rio Arlanzón situa-se no centro da cidade de Burgos. É frequentada por cerca de 450 alunos, da educação pré-escolar ao ensino primário. As famílias têm um nível socioeconómico médio e a maioria dos pais possui formação superior. Compreende 26 professores, um orientador e uma assistente social. Algumas organizações como, por exemplo, uma associação para o autismo, também colaboram com a escola para trabalhar com um conjunto de alunos. Ao contrário de outras escolas da cidade, a escola optou por um dia intensivo e contínuo das 8h30 às 13h30 para responder às necessidades das famílias, com vista a um equilíbrio entre o trabalho e a escola.
Em cada disciplina, os módulos curriculares são divididos em unidades de ensino e cada unidade é dividida em subtemas, atividades, vídeos e tarefas baseadas nas TIC, em que os alunos aprofundam o tema que estão a estudar usando várias ferramentas digitais. A escola também possui um ambiente de sala de aula Moodle em que os professores podem incluir ligações para recursos relevantes, a que podem aceder com os alunos. A forma tradicional de avaliação foi modificada para integrar a avaliação formativa. Os professores podem acompanhar melhor o progresso de cada aluno e podem avaliar o processo de ensino e aprendizagem para melhorá-lo.
A escola é pioneira em autoavaliação, avaliando constantemente as áreas de melhoria e atualizando anualmente o seu plano de melhoria escolar para se adaptar às novas necessidades. O plano tem múltiplas dimensões relacionadas com a operacionalização da qualidade e da melhoria da escola.
As inovações recentes incluem um centro bilingue em inglês (com um assistente de língua nativa que trabalha com alunos do ensino primário, uma hora por semana em cada aula) e estratégias para tirar partido das tecnologias de informação e comunicação na aprendizagem. O centro tem uma certificação CoDiCe de nível 5 (reconhecimento a nível regional da integração das TIC nas escolas), o que significa que os alunos do 5.º ano do ensino primário têm computadores portáteis individuais. Assim, existem várias disciplinas em que os manuais escolares foram suprimidos e os alunos aprendem agora com recursos digitais. Além disso, a partir deste ano de escolaridade, os alunos devem trazer um minicomputador portátil para a escola todos os dias para poderem trabalhar digitalmente. Em cada disciplina, os recursos digitais são divididos em unidades de ensino e cada unidade é subdividida em subtemas, atividades, vídeos e propostas de TIC.
As iniciativas escolares foram reconhecidas através de prémios de qualidade do Ministério da Educação nacional. A escola desenvolve projetos de inovação a nível regional, tais como a Certificação TIC de nível 5 concedida pelo Departamento de Educação do Governo Regional para certificar a obtenção de um nível definido de excelência na aplicação das TIC.
Alguns dos desafios enfrentados ao desenvolver este tipo de prática foram os seguintes:
• Falta de uma infraestrutura digital (computadores e ligação à internet). Esta dificuldade foi superada com a geração de códigos de teste online para os alunos fazerem o teste numa outra altura ou utilizando o computador de um colega que tenha terminado o teste primeiro.
• Lacunas na literacia digital dos alunos, dificuldades na realização de atividades com computadores. No entanto, os alunos desenvencilham-se com a ajuda dos professores ou de colegas da turma.
• Apoio às crianças do primeiro ciclo do ensino primário para que reflitam sobre a sua aprendizagem através da autoavaliação e da avaliação formativa.
• Implementação desde cedo de uma pedagogia autorregulada e centrada no aluno.
• Uso de tecnologias digitais na avaliação formativa.
A direção da escola acredita que o sucesso na inovação envolve desenvolvimento profissional e formação, uma cultura inovadora e um ambiente colaborativo, recursos e apoio financeiro.
O departamento bilingue da escola promove continuamente o uso de novas tecnologias na sala de aula. Há desenvolvimento profissional contínuo dos docentes porque a escola possui uma certificação CoDiCe em TIC. Um dos cursos de formação realizados na escola é denominado "Metodologias Ativas", no qual são apresentadas ferramentas digitais para utilização na avaliação formativa dos alunos. Como resultado, os professores, especialmente no segundo ciclo (ou seja, idades entre os 9 e os 11 anos), estão continuamente a realizar este tipo de prática, sempre com o apoio da equipa de gestão.
Vários professores dão formação aos colegas na escola para mostrar como as ferramentas podem ser utilizadas nas suas aulas. O pessoal da escola recebeu igualmente formação no uso da ferramenta SELFIE, apoiada pelo Instituto Espanhol de Tecnologia Educativa e Formação de Professores (INTEF) e pertence à comunidade de centros educativos na Europa na plataforma eTwinning organizada pelo INTEF entre outros. A escola também participa no eTwinning, com o apoio do INTEF.
Por último, a escola desenvolve um projeto denominado RIO STEAM, em que os professores realizam workshops com alunos dos 5.º ao 7.º ano para desenvolver todas as competências essenciais, incluindo as competências digitais.
Ferramentasw digitais aplicadas
Desenvolvida pela Comissão Europeia, a SELFIE (autorreflexão sobre a aprendizagem eficaz através da promoção do uso de tecnologias educativas inovadoras) é uma ferramenta de autoavaliação concebida para ajudar as escolas a incorporar tecnologias digitais no ensino, na aprendizagem e na avaliação dos alunos. Possibilita destacar o que está a funcionar bem, as áreas em que são necessárias melhorias e quais devem ser as prioridades. A ferramenta está atualmente disponível em 24 línguas.
A SELFIE reúne anonimamente as opiniões de alunos, dos professores e dos dirigentes escolares sobre a forma como a tecnologia é utilizada nas suas escolas, utilizando afirmações e perguntas breves e uma escala de concordância simples de 1 a 5. As afirmações abrangem áreas como a liderança, a infraestrutura, a formação de professores e a competência digital dos alunos.
A avaliação demora cerca de 30 minutos para cada inquirido. As perguntas são adaptadas a cada grupo. Por exemplo, os alunos respondem a perguntas relacionadas com a sua experiência de aprendizagem, os professores refletem sobre a formação e as práticas de ensino e os dirigentes escolares abordam o planeamento e a estratégia geral.
Com base nestes dados, a ferramenta gera um relatório, bem como uma panorâmica dos pontos fortes e fracos da escola em matéria de utilização das tecnologias digitais. Os resultados e perceções do exercício com a SELFIE destinam-se apenas à escola e não são partilhados, a menos que a escola opte por fazê-lo. As conclusões podem ajudar a escola a desenvolver um plano de ação. A SELFIE pode então ser utilizada numa fase posterior para avaliar o progresso.
O exemplo de atividade envolve uma turma de ciências sociais do 6.º ano com 24 alunos (estão disponíveis mais informações sobre o cenário de aprendizagem “Acompanhamento com as TIC”). Tem como objetivo verificar o progresso dos alunos ao longo da unidade de ensino ao usar ferramentas digitais de uma forma fácil. O objetivo é permitir que os alunos avaliem a sua aprendizagem e ajudar os professores a verificar como os alunos estão a progredir e o que precisam de fazer a seguir. Embora os resultados gerais dos alunos sejam apresentados no quadro da sala de aula sem valores numéricos, cada aluno pode ver os seus próprios erros no computador. Desta forma, os alunos têm menos medo de cometer erros.
O professor procura apresentar novos conteúdos de forma simples, familiarizar os alunos com as ferramentas digitais e estimular nos alunos a vontade de aprender e de melhorar. Ao trabalhar em computadores, individualmente, os alunos devem tornar-se mais autónomos e assumir a responsabilidade pelo seu trabalho.
Durante a primeira sessão é feita uma breve introdução ao tema para verificação de conhecimentos prévios, utilizando conteúdos digitais pré-preparados e vídeos com notas explicativas (em espanhol). Os alunos podem utilizar o conteúdo digital para estudar ao seu próprio ritmo. São utilizados recursos semelhantes (em espanhol) nas sessões seguintes, que são realizadas em casa. Quando os alunos terminam a tarefa, extraem uma captura de ecrã dos resultados e colam-na num editor de texto (por exemplo, MS Word). Ao guardar estes ficheiros, os alunos podem verificar os seus trabalhos anteriores e perceber o seu progresso, bem como o feedback dado anteriormente pelo professor.
Na sessão seguinte, o professor organiza uma atividade utilizando outro teste online (por exemplo, sobre a história moderna de Espanha) que permite o trabalho em grupo na sala de aula. As perguntas são criadas no smartboard e a turma trabalha em conjunto, sendo que as suas respostas aparecem no quadro. Desta forma, os professores e os alunos podem ver as respostas certas e erradas e discutir a razão por que algumas respostas estão erradas. A sessão continua com mais vídeos e atividades online, a partir do acervo de recursos digitais da escola ou de outros sítios web (as ligações são publicadas na sala de aula virtual da turma).
Durante a última sessão da unidade de ensino, o professor faz uma avaliação com base nas respostas dos alunos recolhidas noutro teste online sobre a história moderna espanhola. Desta forma, quando os alunos cometem um erro, ficam a conhecer a resposta correta para poderem corrigi-la no fim.
Investigação – Apoiar a autonomia do aluno
A implementação de práticas de avaliação formativa, como a autoavaliação, no ensino primário, pode ajudar os alunos a adotá-la como uma prática regular. Um estudo em sala de aula numa escola primária revelou que os alunos tinham melhor aproveitamento a matemática se fizessem uma autoavaliação regular, em comparação com os alunos que não a faziam.
Os investigadores concluíram que os alunos têm mais sucesso a regular sua própria aprendizagem quando definem metas de aprendizagem que são pessoalmente relevantes para eles (Sheldon e Elliot, 1998; Lee, Choi e Kim, 2013). Estas conclusões tiveram origem em grupos na análise dos dados referentes a grupos de alunos mais velhos, mas provavelmente também serão verdadeiras para os alunos mais jovens.
Conclusões
Os alunos mostram um elevado nível de interesse ao realizar este tipo de práticas e ganham mais confiança ao verificar tudo o que aprenderam e ao serem capazes de corrigir de imediato os seus erros. Graças a este tipo de práticas, os alunos revelam uma atitude diferente relativamente à avaliação e agora sabem avaliar melhor a sua aprendizagem.
Quase todos os professores da escola utilizam estas ferramentas, que lhes permitem perceber o que os alunos aprenderam em casa. Os próprios alunos também aprenderam a realizar este tipo de atividade e, como tal, podem rever os conteúdos das aulas, demonstrando que podem adaptar-se a diferentes situações e contextos.
A direção da escola e os outros professores apoiam esta forma de trabalhar, reconhecendo que é motivadora para os alunos. Para o diretor da escola, a inovação sustentada em toda a escola significa uma mudança de mentalidade. A escola acredita que os professores devem estar recetivos a atualizar constantemente a sua forma de trabalhar para se adaptarem às necessidades dos alunos, pois a tecnologia avança rapidamente. A mudança de mentalidades pode ser difícil quando há alterações no corpo diretivo, poucos incentivos à mudança para os professores e famílias e quando as escolas têm uma autonomia reduzida para criar novos modelos escolares. A escola planeia desenvolver novas estratégias de melhoria, promover o feedback e avaliar os efeitos da inovação.
Este estudo de caso ilustra como uma prática de avaliação formativa digital simples pode ser adaptada a diferentes disciplinas e atividades. Exemplifica alguns dos elementos das melhores práticas na avaliação formativa. Por exemplo, avaliar a aprendizagem anterior, definir objetivos de aprendizagem, utilizar diferentes ferramentas digitais para cumprir esses objetivos, bem como ajudar os alunos a refletirem sobre a sua aprendizagem e a serem responsáveis por ela. O estudo de caso mostra a importância da preparação e algumas das principais vantagens dos recursos digitais: podem ser revistos, partilhados, são de acesso fácil e motivadores para os alunos.