Tecnologia da educação nas escolas finlandesas do ensino básico
Resumo
As escolas finlandesas do ensino básico estão vinculadas aos municípios finlandeses. Este fator cria uma importante dinâmica quando as escolas implementam novas tecnologias educativas. Os municípios finlandeses são responsáveis pela aquisição de novos produtos educativos, mas também envolvem os professores no processo de decisão, inteirando-se das suas necessidades e experiências enquanto utilizadores. ViLLE é um exemplo de plataforma digital popular em escolas finlandesas do ensino básico. O caso da plataforma ViLLE mostra como é crucial envolver os professores e os alunos no processo de testagem da ferramenta para garantir uma implementação eficaz de qualquer tecnologia educativa.

Source: Olga Yastremska, New Africa, Africa Studio - Adobe Stock
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Os municípios finlandeses são responsáveis pela oferta do ensino básico
As escolas finlandesas do ensino básico têm aproximadamente 554 000 alunos dos 7 aos 16 anos, organizados em 9 níveis. A escola finlandesa do ensino básico inclui o 1.º e o 2.º ciclos (1.º ao 6.º anos) e o 3.º ciclo do ensino básico (7.º ao 9.º anos). Existem aproximadamente 2300 escolas e 27 000 professores e diretores de escolas. Cerca de 95% dos professores têm o grau de mestre (MA).
Os municípios finlandeses são responsáveis pela organização e pela oferta do ensino básico. Em 2021, havia 309 municípios na Finlândia. Por lei, os municípios são autónomos, mas regulados pela autoridade regional que representa a regulamentação estatal. Os municípios oferecem muitos dos chamados serviços públicos de segurança social, como a educação gratuita e cuidados de saúde pública de baixo custo, bibliotecas públicas e muitos mais. O Estado financia muitos dos serviços essenciais dos municípios através de um regime fiscal comum, embora os municípios também tenham as suas próprias receitas fiscais. Em 2023, todos os serviços de saúde serão agregados num novo nível de decisão política a nível regional, deixando assim a educação como o principal serviço prestado pelos municípios finlandeses.
Ao discutir o desenvolvimento, os recursos, os fundos, as políticas escolares, etc. na Finlândia, devemos examinar mais atentamente o modo como os municípios e a educação pública funcionam. Embora o Estado financie a educação e participe fortemente no desenvolvimento da educação e do currículo, os municípios são autónomos na forma como organizam a educação e que recursos lhe atribuem (no cumprimento da lei naturalmente e, em última análise, da constituição finlandesa, ou seja, o ensino básico permanece obrigatório e gratuito).
O mais alto órgão de decisão, as câmaras municipais e os seus representantes de diferentes partidos, decidem o orçamento dos municípios, o que tem consequências diretas sobre a organização das escolas e os recursos atribuídos, incluindo a tecnologia educativa e o pessoal.
A nível do município, dependendo da sua dimensão, existe normalmente um departamento ou gabinete educativo responsável pela gestão da educação. A dimensão dos municípios varia consideravelmente, desde a capital finlandesa, Helsínquia (657 674 habitantes, aproximadamente 50 000 alunos do ensino básico), até à pequena cidade de Luhanka (699 habitantes, aproximadamente 100 alunos do ensino básico). Os departamentos de educação também têm pessoal responsável pela utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) na educação. Estes departamentos trabalham em estreita colaboração com outros departamentos, como o departamento de Tecnologias de Informação (TI) que administra o ecossistema e a infraestrutura de TI do município. Em conjunto, estes dois departamentos são, em muitos municípios, responsáveis pelos serviços de TI que são utilizados nas escolas. São ainda responsáveis pela formação em serviço e pela experimentação de novas práticas.
Os municípios finlandeses oferecem bons serviços de TI. Hoje em dia, é raro uma pessoa ter de se deslocar a um balcão de atendimento ou marcar uma consulta num dentista ou renovar o empréstimo de um livro da biblioteca. Esta cultura de integração em infraestruturas de TI tem ocorrido desde a década de 1990 e talvez esteja ligada ao facto de a Finlândia ser bastante rural e a digitalização ser vista como uma solução para disponibilizar acesso equitativo aos serviços e ao conhecimento para todos.
No caso das escolas, a situação é idêntica; os serviços de TI são oferecidos a todas as partes interessadas na educação. Por exemplo, um sistema de gestão dos alunos, denominado Wilma, é um software baseado na web e numa aplicação que proporciona um meio de utilização simples para os pais/encarregados de educação interagirem com a escola, obterem informações sobre o progresso da aprendizagem dos alunos e lerem mensagens diárias importantes. Apresenta igualmente uma interface diferente para os professores que o utilizam a fim de inserirem notas, redigirem certificados e introduzirem dados administrativos, como o absentismo dos alunos.
Como as escolas representam a cidade e o poder público, geralmente não podem tomar decisões de aquisição sem abrirem um concurso público junto de vendedores e fornecedores. É assim assegurada a concorrência justa entre os fornecedores e o cumprimento pelas propostas de determinados critérios. O processo é transparente, evitando riscos de utilização indevida ou corrupção. Na maioria dos municípios, antes de adquirir uma tecnologia educativa, a escola deve consultar, em primeiro lugar, o seu departamento educativo.
Note-se que muitos municípios têm os seus próprios processos particulares de implementação da tecnologia que podem diferir dos descritos neste documento. No entanto, todos os municípios devem garantir que as aquisições sejam efetuadas de acordo com a lei e que o processo seja justo e transparente.
Anteriormente, os municípios adquiriam tecnologia educativa de acordo com um processo mais do topo para a base. Devido à ausência da perspetiva do professor, este processo pode ter levado a aquisições baseadas em capacidades técnicas das quais os aspetos pedagógicos eram omissos.
No entanto, tornou-se desde cedo evidente que, quando os professores não contribuem para a decisão sobre a tecnologia a adquirir, é menos provável que utilizem efetivamente essas novas ferramentas. Como envolver na tomada de decisões os professores e os alunos, que são os que melhor sabem utilizar a tecnologia na sala de aula?
Uma forma pode ser a recolha de dados junto dos professores (por exemplo, através de inquéritos). O diretor da escola pode ajudar na recolha desses dados, que podem ser utilizados para fazer uma análise temática rápida para o departamento de educação do município. O município também pode tomar decisões com base em dados recolhidos junto de professores orientadores. Na Finlândia, as escolas têm um professor orientador em cada escola, que é responsável pelo desenvolvimento pedagógico da escola e está bem informado sobre as tecnologias educativas. O departamento de educação também consulta, naturalmente, o departamento de TI do município porque os novos programas e dispositivos devem adequar-se à infraestrutura de TI do município.
Existem muitas formas de envolver os professores e os alunos na tomada de decisões sobre a aquisição de tecnologia educativa. No entanto, seria sensato uniformizar este processo e conseguir o envolvimento de todas as partes interessadas, professores, alunos e fornecedores no mesmo.
A cidade de Helsínquia introduziu uma forma interessante que envolve os professores e os alunos na seleção e aquisição de novas tecnologias educativas, atuando sempre no cumprimento da lei. Desde que Helsínquia introduziu este novo processo, muitas outras grandes cidades adotaram um processo semelhante. A ideia principal é criar uma lista de desafios definidos por painéis de professores.
Por exemplo, alguns professores numa escola podem comunicar que têm necessidade de uma solução digital para facilitar a avaliação formativa. Espera-se que estes professores definam determinados critérios. Por exemplo, os produtos devem incluir um sistema de retaguarda informativo de análise da aprendizagem para o professor, uma interface de utilizador interessante, devem ser compatíveis com qualquer dispositivo, etc. Em seguida, o departamento educativo prepara um anúncio oficial ou “Convite à apresentação de ideias” destinado a fornecedores, empresas em fase de arranque e empresas mais institucionalizadas para que apresentem soluções que cumpram os referidos critérios.
Na sequência do convite oficial, os fornecedores apresentam as suas ideias, bem como os produtos wireframe e as versões beta, ao painel de professores. O painel decide então que fornecedor(es) selecionar para criar subsequentemente o seu produto juntamente com as escolas. Nesta fase de experimentação, os professores e os alunos podem participar em vários ciclos de desenvolvimento dos produtos, garantindo que o que quer que o fornecedor conceba e codifique cumpra efetivamente as exigências do utilizador final, ou seja, as necessidades de alunos e professores.
Em suma, quando os fornecedores incluem os utilizadores finais (por exemplo, professores, alunos) no desenvolvimento do produto numa fase inicial, os produtos serão adquiridos por mais professores e alunos.
Investigação – As escolas enquanto organizações de aprendizagem
Kools, et al. (2020, em inglês) examinam as características principais das escolas enquanto organizações de aprendizagem (EOA). Perante os resultados de um inquérito no País de Gales (Reino Unido) junto de 1703 funcionários escolares concluiu-se que uma escola deste tipo está associada a oito dimensões:
- Uma visão comum centrada na aprendizagem dos alunos
- Contribuição dos parceiros para a visão da escola
- Oportunidades de aprendizagem contínua
- Aprendizagem e colaboração em equipa
- Uma cultura de investigação, inovação e exploração
- Sistemas de recolha e intercâmbio de conhecimentos e ensinamentos
- Aprendizagem com e a partir do ambiente externo
- Modelação da liderança na aprendizagem.
Este inquérito pode ser utilizado como uma escala para orientar o pessoal da escola, e a comunidade local, bem como a administração regional, a identificar pontos fortes e áreas de melhoria para as suas escolas e a desenvolver qualquer aspeto, incluindo a avaliação digital.
As escolas finlandesas conseguiram continuar em funcionamento apesar das circunstâncias difíceis inerentes à COVID-19. Como os municípios tinham investido na digitalização, as escolas tinham criado ambientes de aprendizagem digital suficientes antes da COVID-19. Um desses ambientes digitais de aprendizagem era a plataforma ViLLE que os professores e os alunos utilizaram em larga medida para o ensino à distância, facilitando a avaliação formativa com o auxílio desta ferramenta digital.
ViLLE é uma plataforma de aprendizagem digital, utilizada para criar tarefas de aprendizagem adaptadas na forma de jogos digitais e para dar feedback automático. A popularidade da plataforma atingiu novos patamares durante a primavera de 2020, quando a COVID-19 atingiu fortemente o setor educativo, obrigando as escolas, a nível global, a adotar métodos de ensino a distância.
Os professores podem simplesmente começar a utilizar a plataforma ViLLE no chamado modo de testagem, no qual podem experimentar diferentes funções e testar a forma como o material de aprendizagem funciona no ambiente da ViLLE. Após o teste inicial, os professores podem criar uma aula virtual, convidar os alunos a participar na aula e criar tarefas de aprendizagem para eles. Os professores também podem usar materiais de aprendizagem já preparados, criados por outros utilizadores da plataforma, em matemática, programação, finlandês e inglês.
A experimentação de um novo software para a aprendizagem pode permitir ao utilizador final uma visão geral de como o ambiente funciona. No entanto, a introdução de novas tecnologias educativas, bem como levar os professores a utilizarem-nas diariamente, requer uma formação aprofundada. Deve também garantir-se que os professores se sintam envolvidos no processo e que as suas dúvidas e preocupações em relação ao uso da tecnologia sejam ouvidas. Por conseguinte, é oferecida formação aos professores porque nem todos os professores estão familiarizados com ambientes de aprendizagem adaptativos ou sabem como criar aulas virtuais ou como realizar a avaliação formativa digital. No caso da plataforma ViLLE, a formação dos professores é ministrada pela empresa finlandesa Eduten ou por professores locais licenciados para formar outros professores na utilização do sistema ViLLE.
Durante a pandemia da COVID-19, a plataforma ViLLE foi extensamente testada em escolas finlandesas do ensino básico para facultar a professores e alunos os materiais necessários de ensino a distância. Durante a pandemia, a equipa ViLLE também ofereceu formação através de videoconferência para, em segurança, prestar aos professores as informações necessárias.
O número de utilizadores da plataforma ViLLE e de tarefas concluídas na plataforma de aprendizagem ViLLE quadruplicou durante a pandemia, na primavera de 2020. Durante o período de ensino a distância, alguns professores usaram a plataforma para dar as aulas e implementar a avaliação formativa. Os professores estavam especialmente interessados em receber informações mais precisas sobre a aprendizagem dos alunos e sobre como adaptar o nível de dificuldade dos exercícios apresentados na ViLLE de modo a corresponder ao nível de competência do aluno.
Os estudos revelaram que as escolas finlandesas já haviam adotado o Microsoft Office 365 e/ou a Google G Suite que, juntamente com o sistema de administração de alunos Wilma, proporcionavam todos os ambientes de aprendizagem digital, videoconferência e ferramentas de criação de portefólios digitais necessários. Além disso, as escolas utilizaram a plataforma ViLLE para dotar os alunos de materiais de aprendizagem digital, o que também proporcionou aos professores recursos de avaliação formativa. Durante a pandemia da COVID-19, os professores na Finlândia, mas também em muitos outros países europeus, comunicaram que tiveram sistematicamente problemas com a realização de avaliações no ensino a distância. Na Finlândia, os professores procuraram ferramentas de jogos educativos digitais, como a plataforma ViLLE, para resolver este problema.
Investigação – Apoio dos pais/encarregados de educação e professores à aprendizagem online durante o ensino a distância de emergência
Um relatório da OCDE de 2020 (em inglês) sobre o reforço da aprendizagem online durante a crise da COVID-19 destacou que as atitudes e a motivação dos alunos são fortemente influenciadas pelo apoio emocional dos pais/encarregados de educação e pelo entusiasmo dos professores, incluindo na aprendizagem online. No entanto, algumas famílias e professores têm tido dificuldade em dar apoio durante a crise da COVID-19, devido à falta de tempo, a conhecimentos digitais insuficientes ou à ausência de orientações curriculares adequadas. A aprendizagem a distância de emergência, durante a crise da COVID, revelou, assim, a necessidade de direcionar o apoio para pais/encarregados de educação e professores, de forma a garantir a atualização dos seus conhecimentos digitais.
Conclusões
Em suma, é fundamental que os professores e os alunos participem na introdução da tecnologia educativa nas escolas. Deste modo:
- O processo permanece democrático e participativo
- Garante-se que qualquer tecnologia que seja implementada é a necessária àqueles que a utilizam
- Garante-se que a implementação seja duradoura, alcance um público alargado e que o produto seja divulgado no setor educativo.
A aceitação pode ser ainda mais intensificada, se a formação for ministrada na escola onde a implementação irá ocorrer e onde estão os professores que precisam da formação. Além disso, é importante utilizar dispositivos próprios das escolas, os mesmos dispositivos que serão utilizados para a plataforma digital, uma vez que podem ser assim revelados problemas técnicos. A utilização de dispositivos escolares também pode aumentar a confiança dos professores no uso da tecnologia após a formação, graças à familiaridade com o contexto.
Por último, os estudos têm indicado que os professores valorizam a formação prestada por colegas professores e é por isso que a implementação e a formação deve envolver outros professores como formadores. Uma outra abordagem popular consiste em formar 1 a 3 professores numa escola, que depois disseminam a informação sobre a utilização da plataforma digital, podendo formar outros professores.